Estávamos a dia 1 de abril, tudo indicava que a operação ao
pé seria no dia seguinte.
Estava ansiando por esse momento quando o Dr. L. me disse
que ainda não seria possível a operação ser dia 2 de abril, pois após abrirem a
tala onde estava adormecido o “Todo Poderoso”, o médico constatou que o edema
que me acompanhava desde Terras da Rainha Jinga havia inflamado.
Nestes casos, uma atitude de precaução permite reduzir os
problemas num pós-operatório, isto é, torna-se preferível garantir que traçamos
um desenho quase perfeito numa resistente e imaculada tela de algodão do que
numa tela imunda e com rasgões. Por muito que o traço seja perfeito, se a base
não o é, o desenho sairá sempre com imperfeições.
Alguns dias passaram até que a medicação anti-inflamatória
começou a fazer efeito. Saber esperar é uma virtude que aprendo diariamente.
Era dia 3 de abril. Da janela do meu quarto conseguia
avistar a extremidade do edifício da maternidade do Hospital e do lado direito,
um aglomerado de pinheiros mansos que mais se assemelhavam a um real molho de brócolos
. O céu, nesse dia, estava azul e pincelado de algumas nuvens esbranquiçadas…
como se os anjos tivesse feito pintura livre.
Este dia iniciou (como todos os outros) pelas 6h da manhã
com a toma da medicação para as dores. Às 9h da manhã é hora de levantar para
tomar banho e a rotina diária espelha-se pela sequência de acontecimentos que
vos partilho:
1.
a assistente baixa a cama , em seguida retiro as
calças do pijama disponibilizado pelo Hospital começando pela
perna que não tem a tala. Passo para a perna engessada e com cuidado faço
deslizar a “perna” do pijama até despi-la por completo;
2.
a assistente reveste-me a perna doente com um
saco de plástico selando com uma fita adesiva que arranca os pelos que ainda me
restam na parte superior da perna (pois com este ritual diário, de cada vez que
retiro a fita lá vão mais uns”).
3.
Desloco-me, com a ajuda das minhas fiéis “mulatas”
(entenda-se muletas que vieram de África) para o WC. Até lá tenho tempo para ir
pensando nos detalhes logísticos que me surgem em pensamento sempre que me
aventuro em mais um banho. Passo a descrever-vos a disposição do WC: um largo
lavatório de frente com duas barras de apoio em cada um dos lados. À esquerda da
porta temos o duche e nessa parede está uma pequena cadeira regulável que se
encontra fixa à parede. Da parede saem mais duas barras de apoio que formam uma esquadria que rodeia a zona do duche. No seguimento dessa mesma parede, logo de lado, temos a
retrete. Ora a ordem de pensamento-ação que eu tinha era algo como isto: “1º retiro
os champôs da bolsa de higiene e coloco-os em cima da retrete; 2º coloco o
pijama e a toalha na barra de apoio para melhor alcança-los; 3º retiro a
embalagem da esponja disponibilizada pelo Hospital que, por sinal já vem impregnada
de sabonete; 4º sento-me na cadeira regulável e dispo a parte de cima do pijama
que atiro para longe, de forma a não molhá-la e a não escorregar sobre ela. 5º o
deleite começa!
4.
Findo o banho, enxugo-me e inicio o processo (refletido)
de vestir o pijama, ora notem: 1º a camisola; 2º as calças do pijama começando
agora pela perna engessada e porquê, perguntam vocês? Para que seja mais fácil
depois vestir a esquerda sem mover muito a perna doente (tudo tem estratégias que o ser humano de forma criativa e natural, encontra para superar a dificuldade). Passo então para a
perna boa, penteio-me, lavo os dentes,arrumo o WC e rumo de volta à minha cama
de “Hotel”.
À cabeceira tenho o livro “I
dreamed of Africa” de Kuki Gallmann, uma história real que deu origem ao filme “África
dos meus Sonhos”. Como me identifiquei com esta história!Esta, relata uma
sequência de acontecimentos na vida da autora de nacionalidade italiana que
tinha o desejo ancestral de viver em África. A começar pelo facto de, ainda em
Itália, sofrer um acidente que a deixou com fraturas múltiplas e a obrigou a
meses envolta em gesso como “uma crisálida gigante”. Foi ainda como “aleijada”
que colocou os pés pela primeira vez em África, no Quénia, em 1970 –"(…)ainda
que apoiada nas muletas, isto finalmente era África”(Gallmann, 1991).
Deixou a Europa para se fixar no Quénia desde os anos 70 até aos dias de hoje.
Passou pela tragédia de perder um filho de 17 anos e o marido, em solo
africano. Deu à Luz uma menina e ainda hoje, as duas partilham a sua vida
dedicadas a causas nobres como à proteção e conservação da vida animal selvagem
no Quénia, especialmente, os elefantes tão violentamente chacinados pelos caçadores que buscam, desenfreadamente os seus
dentes de marfim.
Kuki Gallmann fundou então a The
Gallmann Memorial Foundation (http://www.gallmannkenya.org/).
Mais uma vez insisto: Será Sorte,
será azar, quem sabe?
Todos temos uma missão na Vida.
Um forte e sentido abraço
Teresa


