15 dias de internamento numa Unidade de Ortopedia de um
Hospital Público permitem-nos registar alguns acontecimentos, peripécias, em
suma, um quotidiano onde partilhamos parte da nossa intimidade com equipas de
médicos, enfermeiros, assistentes hospitalares, assistentes de nutrição e
dietética, assistentes de limpeza e com (no caso) a companheira de quarto.
Não menos importante, a convivência com outros pacientes,
cada um com a sua maleita, fratura, mazela, sei lá!
Do meu quarto, de onde não saí até dois dias antes da alta
médica, apenas vislumbrava a paisagem além da janela e a minha companheira de
quarto. Apercebia-me, contudo, de toda a azáfama que se vivia no exterior do quarto.
Escutavam-se os sons das equipas de pessoas que trabalhavam, diariamente, para
garantir que todas as tarefas inerentes às suas funções, eram cumpridas. Apercebia-me
de vozes de pacientes de outros quartos e habituava-me a elas. Criava todo um
universo imaginário a partir daquilo que escuta e formava as minhas imagens
mentais.
Algumas situações caricatas:
·
Uma senhora que deu entrada ao final de um ou
dias da minha estadia e que apenas gritava:
- “Armiiindaaa, oh Armiinndaaa”, entre este
chamamento insistente e ruidoso interpolava com algumas onomatopeias – “Béeeeee,
béeeee” e outras expressões típicas de quem está num tremendo estado de
confusão…"cócó, chichiiii!”
[rapidamente percebi que era uma senhora de
40 anos que tinha sofrido um traumatismo craniano em seguimento de um atropelamento
provocado por um elétrico. Jesus! mas
quem é que é atropelado por um elétrico?? ]
·
Um assistente hospitalar que chega para iniciar
o turno da noite e diz - para alguém que o escutaria - de forma espirituosa e
estridente: -“Preciso de uma camisola de gola alta. Não há? Só há cobertores!
Este serviço deve ser muito frio para só haver cobertores! Ah, ah, ah” [talvez
fosse só alguma private joke que não
apanhei!]
·
Um enfermeiro que no final da noite vem fazer a “
ronda da medicação” e pergunta à minha companheira de quarto:
“D. A., tenho aqui a medicação para as
dores. Prefere em comprimido ou injetável?” [a mim só me lembra aquela anedota
do senhor que não conseguia dizer nem os eles nem os erres: “ ó minha senhoa, quer
ém boga ou pão d’hambuga” referindo-se ao tipo de pão. Ou então aquela comédia
portuguesa: “Senhora, o seu receituário? Quer em comprimido, xarope ou assim -assim?”.
Acho que era isto (risos)]
·
Não havia, naquele dia, mais quartos disponíveis
na Unidade de Ortopedia e nisto, uma paciente recém-chegada tem que ficar numa
cama, no corredor e como tal, não tinha o típico comando, junto a cada cama,
para chamar a enfermeira. Entretanto a enfermeira responsável pela paciente, com um sentido de humor
apurado diz-lhe: -“Então D. X., se precisar de alguma coisa, grite! A
senhora não tem comando nem quarto, não pagou a renda, não teve direito a
quarto!” [confesso que no meio de alguns ais, não há como não rir destas saídas
cómicas!]
Não são anedotas mas garanto que alguns destes caricatos
episódios fizeram os meus dias!
Forte abraço!
Teresa
Teresa