Tuesday, 6 May 2014

Quotidiano de uma Unidade de Ortopedia (peripécias!)


15 dias de internamento numa Unidade de Ortopedia de um Hospital Público permitem-nos registar alguns acontecimentos, peripécias, em suma, um quotidiano onde partilhamos parte da nossa intimidade com equipas de médicos, enfermeiros, assistentes hospitalares, assistentes de nutrição e dietética, assistentes de limpeza e com (no caso) a companheira de quarto.
Não menos importante, a convivência com outros pacientes, cada um com a sua maleita, fratura, mazela, sei lá!

Do meu quarto, de onde não saí até dois dias antes da alta médica, apenas vislumbrava a paisagem além da janela e a minha companheira de quarto. Apercebia-me, contudo, de toda a azáfama que se vivia no exterior do quarto. Escutavam-se os sons das equipas de pessoas que trabalhavam, diariamente, para garantir que todas as tarefas inerentes às suas funções, eram cumpridas. Apercebia-me de vozes de pacientes de outros quartos e habituava-me a elas. Criava todo um universo imaginário a partir daquilo que escuta e formava as minhas imagens mentais.

Algumas situações caricatas:

·         Uma senhora que deu entrada ao final de um ou dias da minha estadia e que apenas gritava:

- “Armiiindaaa, oh Armiinndaaa”, entre este chamamento insistente e ruidoso interpolava com algumas onomatopeias – “Béeeeee, béeeee” e outras expressões típicas de quem está num tremendo estado de confusão…"cócó, chichiiii!”

[rapidamente percebi que era uma senhora de 40 anos que tinha sofrido um traumatismo craniano em seguimento de um atropelamento provocado por um elétrico. Jesus! mas quem é que é atropelado por um elétrico?? ]

·         Um assistente hospitalar que chega para iniciar o turno da noite e diz - para alguém que o escutaria - de forma espirituosa e estridente: -“Preciso de uma camisola de gola alta. Não há? Só há cobertores! Este serviço deve ser muito frio para só haver cobertores! Ah, ah, ah” [talvez fosse só alguma private joke que não apanhei!]

·         Um enfermeiro que no final da noite vem fazer a “ ronda da medicação” e pergunta à minha companheira de quarto:

“D. A., tenho aqui a medicação para as dores. Prefere em comprimido ou injetável?” [a mim só me lembra aquela anedota do senhor que não conseguia dizer nem os eles nem os erres: “ ó minha senhoa, quer ém boga ou pão d’hambuga” referindo-se ao tipo de pão. Ou então aquela comédia portuguesa: “Senhora, o seu receituário? Quer em comprimido, xarope ou assim -assim?”. Acho que era isto (risos)]

·         Não havia, naquele dia, mais quartos disponíveis na Unidade de Ortopedia e nisto, uma paciente recém-chegada tem que ficar numa cama, no corredor e como tal, não tinha o típico comando, junto a cada cama, para chamar a enfermeira. Entretanto a enfermeira responsável pela paciente, com um sentido de humor apurado diz-lhe: -“Então D. X., se precisar de alguma coisa, grite! A senhora não tem comando nem quarto, não pagou a renda, não teve direito a quarto!” [confesso que no meio de alguns ais, não há como não rir destas saídas cómicas!]

 

Não são anedotas mas garanto que alguns destes caricatos episódios fizeram os meus dias!

Forte abraço!
Teresa